A Fruta Cozida- um poema de Ariadne Castro

Está uma tigela de fruta cozida ali a olhar para mim.
É fruta- e está cozida!
Está ali a fruta, e eu estou aqui
tremendo diante do aroma
escorregadio e açucarado que emana daquela tigela
tremendamente contendo a fruta, no seu fundo,
cozida

Está uma tigela
que podia ser normal
mas tem fruta

Dá-me vontade de gritar, essa matéria-sobretudo cozida!
Vontade de morrer e de matar,
vontade de desfazê-la só um pouco melhor
com um martelo!

Está ali 
e não deixa de estar ali, a fruta cozida.
Não importa o que sucedeu na vida,
a fruta cozida aproxima-se como um anjo negro,
fatídico e silencioso, aromaticamente chegando
a quase metade do fundo da tigela

Choro e rio de desespero com o facto
de que sou eu e ela, e mais não há:

é fruta cozida!

que me dá pele de galinha, e retorcer de olhos
a fruta, e que não tem cura, dizem
que estamos todos cozidos para o bem e para o mal
eu vejo

a tigela de fruta ameaçadoramente

eu quero
que seja eu
em vez dela
eu caio
eu vou- eu nunca irei!

a fruta

cozida