A Natureza não se confina-um artigo de Fernanda Botelho

A natureza não se confina

As ervas da beira dos caminhos têm má fama, a maioria das pessoas não gosta delas, chamam-lhes com desdém ervas daninhas, infestantes ou invasoras sem terem a mínima ideia de que essas plantas têm identidade, têm um nome botânico, uma espécie, um género e uma família a que pertencem tal como nós humanos.

Nesta primavera covidica tenho tido o imenso privilégio de disfrutar desta abundância de cores, formas, texturas, tamanhos e perfumes

Muitas dessas plantas para além de serem exuberantemente bonitas e poderem sem intervenção de jardineiros associarem-se em bonitos espaços espontâneos constituindo autênticos jardins naturais., servem de alimento e de refúgio a uma grande variedade de insetos polinizadores, pássaros, répteis, anfíbios e toda uma cadeia de biodiversidade onde nós também estamos incluídos.

Estas plantas que servem também, muitas vezes para prevenir erosão de solos e consequentemente  contribuir na prevenção de cheias, melhorar a sua qualidade e estrutura no caso, por exemplo  dos cardos,  dos dentes-de-leão ou  das chicórias com as suas raízes profundas que contribuem para descompactar terrenos mais secos e argilosos. Os trevos  de bonitas flores redondas ou ovaladas de cores brancas e perfumadas ou cor-de-rosa alilazado ou até vermelhos são  usados como plantas forrageiras e azotantes muito recomendadas quando as terras estão em pousio e se faz a rotação de culturas, prática sustentável e comum em agricultura biológica que é o mesmo que dizer em agricultura consciente e respeitadora da vida

Muita gente me tem escrito ou comentado nas partilhas de fotos de bermas floridas que tenho colocado nas minhas redes sociais, dizendo-me que andam a observar com mais atenção o ciclo das plantas espontâneas e a falta delas quando são envenenadas ou roçadas em pleno auge da sua floração. Perguntam-me se esta primavera mais silenciosa( Primavera silenciosa” um livro que recomendo vivamente, ver página 3), dizia eu, que me perguntam se de facto há agora mais aves, mais abelhas, mais joaninhas, mais borboletas ou se  é apenas porque andamos com todos os sentidos  mais atentos, mais despertos, mais presentes, experimentando, alguns de nós, pela primeira vez, uma vivência nova da velocidade ou melhor da lentidão do tempo.

É como se renascêssemos para um mundo natural que nos rodeia e que nunca nos tínhamos dado o privilégio de parar para contemplar.

Essa contemplação, essa atenção, esse foco e esse deslumbramento só por si já são terapêuticos.

Quem não tem bermas de estradas para contemplar e caminhos ou separadores centrais das autoestradas tem uma árvore ou um arbusto à porta de casa, uma tanchagem que lhe nasceu num canteiro, uma papoila que surgiu num vaso,  uma erva de são roberto à espreita na fresta de um muro ou um dente-leão a furar o alcatrão dando-nos lições de força e resiliência indiferentes a esta onda de  medo coletivo que atravessa a humanidade quase inteira.

Não me canso de as observar, não me canso de lhes agradecer de cada vez que me passeio pelos campos com o meu cesto e regresso a casa com ele cheio de verdes viçosos e flores coloridas e deliciosas para um belo repasto silvestre, grátis, nutritivo e abundante.

O que mais tenho consumido nesta estação de confinamento  são as folhas picantes da mostarda brava Sinapis arvensis e suas flores amarelas e delicadas que tanto alegram as bermas dos caminhos, como também outras da mesma família e igualmente abundantes, os saramagos Raphnus raphanistrum. Do meu quintal consumo flores e botões de capuchinhas Tropaeolum majus em saladas com as suas folhas cruas faço rolinhos tipo wraps com arroz ou refogado de legumes a servir  de recheio,  com as sementes colocadas em vinagre num frasco devidamente esterilizado faço um picle semelhante a alcaparras só que mais rico em nutrientes, sobretudo vitamina C.

As ´pétalas das papoilas com propriedades sedativas e anti-espasmódicas assim como as flores e folhas das malvas muitos ricas em compostos mucilaginosos conferem aos cozinhados uma textura aveludada e viscosa.algo semelhante ao quiabo e também podem ser utilizadas em saladas ou infusões.

É importante aprendermos a descodificar a natureza, a reconhecer as suas plantas e a saber de que para além de todos os seus benefícios e contributos para a manutenção da biodiversidade no planeta e na regulação do clima elas podem ainda ser consumidas como alimento e como remédio para tratar e aliviar uma infinidade de problemas de saúde.

 É urgente que o cidadão comum em meio rural ou urbano deixe de olhar para as plantas silvestres com desdém, considerando-as lixo que tem de ser limpo. As autarquias têm em mãos uma difícil tarefa de reeducação para a aceitação, o entendimento e a apreciação das múltiplas funcionalidades da vegetação espontânea “

Vamos arregaçar as mangas, pensar em estratégias e acreditar que com tempo e uma boa campanha de sensibilização a flora silvestre ocupará finalmente o lugar que merece no campo e na cidade.

Receita

Numa frigideira refogue num pouco de azeite e alho durante cerca de 10 a 15 minutos uma mão cheia folhas de mostarda brava, folhas de malvas, urtigas e acelgas, adicionar 3 chávenas de arroz integral l biológico previamente cozinhado. Misturar tudo e moldar com a mão pequenos cilindros que serão embrulhados em folhas de capuchinha crua. Servir frio ou quente.

Fernanda Botelho