A tília do meu caminho, por Fernanda Botelho

Encontrava-te sempre quando subia a estrada do Hockey , aquela estrada estreita entres muros cobertos de musgos e de fetos e os grandes castanheiros da índia e plátanos à direita no jardim da Segurança Social.

Virava a esquina e estavas sempre ali, anos a fio na mesma esquina dentro da Quinta de Santo António.

Achava que me esperavas, gostavas do meu olhar pousado nas tuas metamorfoses.

Estavas ali em todas as estações, na Primavera os teus rebentos pequeninos e tenros cintilavam em contraluz, abrindo-se devagar ao toque macio daqueles raios de sol matutinos, depois cresciam e tornavam-se folhas cordiformes (em forma de coração).

Multiplicavam-se arredondando a tua copa prenhe de folhagem muito verde a chamare pelo verão, ai a sombra daquela tília que me esperava sempre no virar da mesma esquina.

Quantas vezes ali parada na fila de transito com condutores mal-humorados e eu sempre bem disposta só de te olhar, em maio abria a  janela do carro e respirava o perfume das tuas flores,

Deslumbrava-se com a multidão de abelhas felizes que contigo faziam amizade.

Com o passar dos anos foste-te tornando cada vez mais imponente, mais presente, mais sombra, mais flor, ai que perfume, quantas abelhas, tanta vida.

Há uns dias virei a mesma esquina e dei de frente com um esqueleto, um tronco decapitado, no teu lugar uma grua que subia às nuvens, e cuspia tijolos e cimento.

Esperavas-me ainda, estavas triste sem ramos nenhuns por onde encaminhar a seiva contida, talvez fosses morrer ou talvez não mas senti que choravas lágrimas de resina amarga e eu chorei contigo lágrimas de seiva e de sal.

Fernanda Botelho

30 março 2021

Artigo publicado no jornal de Sintra de 2 de abril

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