Baudelaire, 200 anos

“SE ALGUMA VEZ, NOS SALÕES DE UM PALÁCIO

Se alguma vez, nos salões de um palacio, sobre a erva de uma vala ou na solidão morna do vosso quarto, acordardes de uma embriaguez evanescente ou desaparecida, perguntai ao vento, a vaga, ao passaro, ao relogio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento a vaga, a estrela, o passaro, o relogio, vos responderão: São horas de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem cessar! Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas embriagai-vos! Deslumbrai-vos!”

Charles Baudelaire (1821-1867), de cujo nascimento passam a 9 de Abril 200 anos, foi um dos mais influentes poetas franceses do século XIX, e um dos precursores do Simbolismo. Inaugurou a modernidade da poesia que só foi reconhecida depois de sua morte.

Nasceu em Paris a 9 de abril de 1821, filho de François Baudelaire e de sua segunda esposa Caroline Defayis, e aos seis anos de idade ficou órfão de pai.

Em 1932, a família mudou-se para Lyon e no ano seguinte, Baudelaire ingressa no internato do Collège Royal de Lyon, onde se rebela contra a estrutura militar.

Ainda na infância, entra em conflito com o mundo que o cerca, e, especialmente com seu padrasto, o coronel Jacques Aupich.

Em 1836, a família volta a Paris, e Baudelaire é matriculado no Lycée Louis-le-Grand. Nessa época, mostra-se melancólico e solitário.

Em 1838 escreve o poema “Incompatibilité”. Em 1839, é expulso da escola, por indisciplina.

Nessa época, decide dedicar-se à literatura. Faz amizade com os poetas Gustave Le Vavasseur e Ernest Prarond, e passa a levar uma vida de boémio, mudando-se para a pensão Lévêque et Bailly.

Em 1841, pressionado pela família, interrompe os estudos superiores e é obrigado a embarcar para Calcutá, na Índia, mas interrompe a viagem e permanece nas ilhas Maurícias.

Em 1842 retorna a França. Nesse mesmo ano, atinge a maioridade, e recebe a herança deixada pelo pai. Passa a morar na ilha de Saint-Louis, torna-se um boémio incurável, e enterra-se no ópio e na cocaína.

Por essa altura, escandaliza Paris ao lado da atriz Jeanne Duval, a “dame créole” de um de seus poemas. Outras mulheres da sua poesia foram Madame Sabatier e a atriz Marie Daubrun.

Em dois anos desbaratou metade da herança do pai, levando a mãe a entrar com uma ordem judicial, para lhe nomearem um tutor.

Baudelaire refugia-se então no misticismo, em busca de experiências exóticas, e procura afirmar a sua individualidade e desprezo pela sociedade. Em 1847 publica a sua única novela “La Fanfarlo”.

Em 1857, ao lançar uma coletânea com os seus mais belos poemas, intitulada “As Flores do Mal”, é acusado pela justiça francesa de atentar contra a moral.

Baudelaire teve a obra apreendida, sendo obrigado a pagar uma pesada multa. Quatro anos depois, retira os seis poemas que foram considerados obscenos, e reedita a obra, com trinta novos poemas.

Ao Leitor

A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez

Habitam nosso espírito e o corpo vicia,

E adoráveis remorsos sempre nos saciam,

Como o mendigo exibe a sua sordidez.

Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça,

Impomos alto preço à infâmia confessada,

E alegres retornamos à lodosa estrada,

Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça.

Na almofada do mal é Satã Trimegisto

Quem docemente nosso espírito consola,

E o metal puro da vontade então se evola

Por obra deste sábio que age sem ser visto.

É o Diabo que nos move e até nos manuseia!

Em tudo o que repugna uma joia encontramos,

Dia após dia, para o Inferno caminhamos,

Sem medo algum, dentro da treva que nauseia…

Mal compreendida pelos seus contemporâneos, a poesia de Baudelaire está marcada pela contradição. De um lado, revela o romantismo de Allan Poe e Gérard de Nerval, e de outro, o poeta crítico que se opõe aos excessos sentimentais e retóricos do romantismo francês.

Baudelaire afirmava que a finalidade da sua poesia era “extrair a beleza do mal” e comunicar aos homens a tragédia essencial do ser humano, dividido entre Deus e o Demónio.

Segundo o crítico alemão Erich Auerbach, Baudelaire criou a poesia moderna ao incorporar na literatura a realidade grotesca. André Breton considerava-o o primeiro dos surrealistas.

Vampiro

Tu que, como uma punhalada,

Em meu coração penetraste

Tu que, qual furiosa manada

De demônios, ardente, ousaste,

De meu espírito humilhado,

Fazer teu leito e possessão

– Infame à qual estou atado

Como o galé ao seu grilhão,

Como ao baralho ao jogador,

Como à carniça o parasita,

Como à garrafa o bebedor

– Maldita sejas tu, maldita!

Supliquei ao gládio veloz

Que a liberdade me alcançasse,

E ao vento, pérfido algoz,

Que a covardia me amparasse.

Ai de mim! Com mofa e desdém,

Ambos me disseram então:

“Digno não és de que ninguém

Jamais te arranque à escravidão,

Imbecil! – se de teu retiro

Te libertássemos um dia,

Teu beijo ressuscitaria

O cadáver de teu vampiro!

Baudelaire destacou-se desde cedo também como crítico de arte. Datam do início da sua carreira: “Salão de 1845” e “Salão de 1846”. Os eus escritos posteriores foram reunidos em dois volumes póstumos, com os títulos de “A Arte Romântica, 1868” e “Curiosidades Estéticas, 1868”.

Destacou-se igualmente como tradutor das obras de Edgar Allan Poe, entre elas, “Histórias Extraordinárias, 1873” e “O Princípio Poético, 1876”.

Entre 1864 e 1866 viveu na Bélgica, quando começaram a surgir problemas de saúde. A obra de Baudelaire, que inaugurou a modernidade da poesia, só foi reconhecida após sua morte.

Faleceu em Paris no dia 31 de agosto de 1867.

REMORSO PÓSTUMO

Quando fores dormir, ó bela tenebrosa,

Em teu negro e mamóreo mausoléu, e não

Tiveres por alcova e refúgio senão

Uma cova deserta e uma tumba chuvosa;

Quando a pedra, a oprimir tua carne medrosa

E teus flancos sensuais de lânguida exaustão,

Impedir de querer e arfar teu coração,

E teu pés de correr por trilha aventurosa,

O túmulo, no qual em sonho me abandono

– Porque o túmulo sempre há de entender o poeta -,

Nessas noites sem fim em que nos foge o sono,

Dir-te-á: “De que valeu, cortesã indiscreta,

Ao pé dos mortos ignorar o seu lamento?”

– E o verme te roerá como um remorso lento.