Dia Mundial do Teatro-Depoimentos de Sérgio Moura Afonso, Rui Mário e Pedro Alves

A 27 de Março assinala-se mais um Dia Mundial do Teatro. Nesse campo, Sintra tem hoje já os seus ícones, formiguinhas laboriosas que vivem fazendo Cultura e fazem Cultura vivendo. E nos últimos anos, criando sonhos feitos de muitos pesadelos, tivemos perene presença de muitos invisíveis arcontes e alquimistas nas noites frias de Sintra, nas escadas dos palácios, atrás das árvores da Regaleira ou de precários lugares conduzindo aflitos mortais na valsa lenta de Ser/Fazer Teatro, colocar máscaras e construir sombras, convocando para a grandeza das fragilidades que só o Teatro, vivo e próximo, cúmplice e agrilhoante permite, assim invadindo e alimentando públicos, ávidos e fáceis no aplauso umas vezes, avaros na presença ou no incentivo outras. Como desde o princípio dos tempos, o Teatro é Vida, e libelo de resistência, a sobriedade da loucura, a poção do druida que a todos tonifica e fortalece.

Neste dia, na palavra de três resistentes e impactantes figuras que em Sintra têm deixado marca, homenageamos a arte de Talma, e com isso, a Vida.

Pedem-me que deixe uma mensagem neste dia que é o do teatro. Obrigo-me a refletir no que quero dizer e passar, tentando esquecer por momentos o que se sente ao celebrar pelo segundo ano este dia, em casa e não num palco como era suposto. 

Decidi então recuperar este texto escrito em 1993 pelo dramaturgo americano Edward Albee. Remeto-me ao essencial: 

Mensagem de Edward Albee (1993) 

“Será que o mundo se torna um lugar cada vez mais estranho à medida que o tempo passa? Penso que sim, e sei que é assim que ele se me afigura. Tenho é de descobrir se isso é obra de um absoluto, ou mero fruto da minha visão deformadora: vislumbres de sageza a par de sinais de declínio. 

(…) 

Todavia é uma pergunta que continua a remoer. 

(…) 

Inventámos a arte- desenvolvemo-la se quiserem- para nos explicarmos a nós próprios, para dar à nossa consciência ordem, clareza e talvez também um sentido. Descobrimos, afinal, que a arte, para merecer esse nome, tem de ser útil e não só decorativa; tem de, na sua inoperância (a arte não muda nada?), mudar tudo. 

(…) 

A arte pode ajudar-nos na caminhada, e, se não permitirmos que ela nos anime e impulsione, jamais nos libertaremos das cadeias que nos amarram e cegam. 

(…) 

O teatro está numa posição privilegiada para fazer com que tudo aconteça, para nos tornar insatisfeitos com a segurança e com a previsibilidade, com tudo aquilo que não modifica a nossa visão das coisas. 

Lembremo-nos disto no Dia Mundial do Teatro. 

Lembremo-nos que os limites do teatro são apenas os que nós lhe impomos… os limites que impomos a nós próprios.” 

Viva a arte! 

Viva o teatro! 

Sérgio Moura Afonso, Ator e Encenador, Capítulo Reversível, Sintra

”'(…)Creio que o teatro deve trazer felicidade, deve ajudar-nos a conhecermos melhor a nós mesmos e ao nosso tempo. O nosso desejo é o de melhor conhecer o mundo que habitamos, para que possamos transformá-lo da melhor maneira. O teatro é uma forma de conhecimento e deve ser também um meio de transformar a sociedade. Pode nos ajudar a construir o futuro, em vez de mansamente esperarmos por ele. (…) Augusto Boal, Jogos para atores e não atores                                                                                                                                                                                                                        

Actual? Actuante? Actuamos? Actuemos! Mantra há muito tempo para mim, cântico para um Mundo Novo, que fazemos minuto a minuto, e isso é muito. É tudo.

Este Homem de Teatro cumpriu-se cumprindo-se. Mui comprido de bem é, diziam os medievais escritores do pop d’altura, nas Canções d’Amigo. Agora é outra a música: há ”isto´´. Encerrados em casa, fingimos os dias que passam esperando Amanhã! Que ”vai ficar tudo bem”, usemos máscara e escapamos.    Um escape, depois outro, mais um…Tempus Fugit, porém.

Fecham os teatros, espaços de diálogo, milenar Ágora onde se vendiam figos e uva, onde se falava de orbes e estrelas diversas, onde se fazia o que melhor sabemos, Humanidade, pensar! Logos p’ra que te quero?!? Fecham crianças e rapazes e raparigas. Fecham-lhe os olhos para o espanto, atam os braços para o Amor, sensual nessa adolescência.

Máscara máscara máscara. Tão bela, molda-se à cara d’Actor, lança voz em Teatro grego, que chora Prometeu, que ri com Lisístrata e sua guerra à Guerra!

Máscara, que salta nas praças com Arlechino e Pantalone, à paulada e traulitada de ir às lágrimas!

Máscara, que grita ‘‘To Be or not to be?”, da boca do dinamarquês Príncipe!

Máscara. Mágica, jogo, esperança. Mas jamais a de agora.

Precisamos Paz: vem através de Cultura. Precisamos de Sonho: nasce da Música, da Literatura, do Teatro, Poesia, Dança, Pintura, desde as belas cavernas espalhadas na Terra toda, onde homens e mulheres já sabiam que não era só caçar, fazer filhos e fogueiras!

São muito estranhos os tempos d’agora, sempre foram, aqui e ali nesta dimensão espacio-temporal, sabemos!

Não é suficiente ter plasma XPTO para assistir aos ”teatros´´. Nem internet e Zoom’s e sei lá o quê para dar ”aulas” de Teatro aos meus lutadores e lutadoras adolescentes que resistem e resistem e resistem! Porque devoram Sonho, Vida, Criatividade, Liberdade! Liberdade, enfim! E só! E Tudo! Tudo por fazerem!    

É um Dia Mundial do(s) Teatro(s). Lugar comum: todos os dias estas Mulheres e Homens que somos fazem o dia mundial do teatro, chorando, criando crianças, contando tostões e partido pão em mais pedaços do que era Justo, desistindo e voltando, trabalhando nas obras e onde se ganhe o soldo diário, como toda a Humanidade. Eventualmente cerrando cortinas. Nos olhos. Nos Teatros. Mas esperando abri-las na alvorada que despontará, chuvosa ou não, mas despontará! Público de Todo O Mundo! Unamo-nos!  E… que se abram as cortinas! A Vida É Sonho!      

Rui Mário, Diretor artístico do Teatro Tapafuros, Sintra                                                                               

TOQUE DE COMETA

Numa das suas deslumbrantes expedições às profundezas da memória, o filósofo alemão Walter Benjamin recorda quando em “pequeno” sentia que a palavra “teatro” irrompia no seu coração como um “toque de cometa”. Não guardo da minha infância qualquer memória de uma experiência semelhante originada pelo contacto com as artes performativas. Mas lembro-me de, por volta dos meus 18 anos, ter assistido ao espetáculo “O Fim ou Tende Misericórdia de Nós”, de Jorge Silva Melo, apresentado pelos Artistas Unidos no espaço da Litografia Portugal. Lembro-me bem de olhar para todos – aqueles homens e mulheres, uns mais jovens do que outros – e achá-los lindos, a todos, todas! Ainda hoje, ao lembrar-me do Paulo Claro, da Joana Bárcia, do Manuel Wiborg, da Glicínia Quartin e todos os outros, tenho vontade de os abraçar, como o desejei fazer naquela noite de 1997. Seria, certamente, muito complicado para aqueles profissionais, abraçar, verdadeiramente, todos os espetadores que, como eu, lhes queriam agradecer pelo evento teatral em que tinham participado.

Num conhecido estudo sobre a intimidade social, o zoólogo Desmond Morris imagina uma hipotética origem do ritual do aplauso. Quando o bebé vê os pais a aproximarem-se de si, lança os braços para diante, como se os quisesse abraçar. Mas eles não estão assim tão próximos. Não os consegue tocar. As mãos chocam uma com a outra. O movimento a partir dos braços e não dos pulsos. Morris argumenta que isto ocorre mesmo quando a mãe ainda não ensinou o bebé a bater palmas. Assim o som das palmas começaria por ser o culminar audível de um abraço vazio aos pais. Mais tarde, quando a criança está a aprender a andar, dá os primeiros passos ainda agarrado aos seus progenitores. Muitas vezes, abraça-lhes as pernas. Nessa altura, os pais abraçam-no de volta e dizem: “Está tudo bem, nós estamos aqui. Vou abraçar-te se precisares. Mas agora já não precisas.” Gosto desta imagem. Um abraço! A ideia do aplauso como um abraço que damos aos profissionais que nos ofereceram aquele espetáculo, em jeito de agradecimento pelo seu trabalho. Um abraço que se transforma em aplauso, na impossibilidade de todos podermos subir ao palco para abraçar cada uma das atrizes, cada um dos técnicos, cada um dos músicos, cada uma das encenadoras que contribuíram para aquela obra. Mas se não há esse contacto físico, corpo-a-corpo, no abraço que é o aplauso, então podemos muito bem nem sequer estar ali, em cima do palco.

No dia 27 de março de 2021 – tal como já acontecera em 2020 -, os públicos parecem voltar a não ter ninguém para aplaudir, ninguém para abraçar. Por razões sobejamente conhecidas – mesmo que incompreendidas -, a esmagadora maioria dos espaços culturais estará encerrada ou, pelo menos, os espetadores não poderão lá entrar para celebrar aquele que dizemos ser o Dia Mundial do Teatro. Mas os profissionais continuarão lá – a representar em live streaming, à distância, ou em transmissões de espetáculos pré-gravados, ou na nossa memória, como fantasmas, a sua presença já apagada, mas as suas performances como caudas de cometas a rasgarem os céus negros que vamos atravessando nestes dias tão estranhos. Tal como têm estado nos 86 dias anteriores e como, de algum modo, persistirão nos restantes 279 dias que o ano ainda nos reservará para que os continuemos a aplaudir, a abraçar.

Haverá dias em que as atrizes, os cenógrafos, as figurinistas, os técnicos, os produtores, as dramaturgas, abrirarão também os braços e, assim à distância, abraçar-nos-ão a todas e todos, agradecendo de volta. Todas as noites, antes de adormecerem, os meus filhos mais novos, enlaçam-me com os seus braços assim mesmo, corpo-a-corpo, na presença um do outro. A mais velha já quer mais distância. Por vezes, já só me dá abraços no vazio. Para ela eu já começo a ser um fantasma. E os meus pais, corpos celestes que se vão afastando cada vez mais e em quem já não toco há mais de um ano… Seja como for, agradeço-lhes, continuo a abraçá-los. Amo-os.

Pedro Alves, Ator e Encenador, teatromosca, Sintra