Entrevista com a pianista Helena Vasques

Em mais uma entrevista com membros da Rede Cultural de Sintra, coube desta vez a ocasião de falar com Helena Vasques, e saber um pouco mais sobre a sua personalidade e obra.

Quem é a Helena Vasques?

Sou música e socióloga, com Doutoramento do ISCTE em Sociologia da Cultura e um Mestrado em piano dos EUA. Tenho trabalhado estes longos anos como pianista profissional, em muitos concertos de música de câmara com grandes músicos portugueses e estrangeiros, e como pianista de Orquestra na Gulbenkian e Sinfónica. Entretanto também faço investigação em sociologia da cultura, sou investigadora no INET-md (Universidade Nova), frequentemente convidada como observadora de reuniões da Unesco em Paris (este ano foram online), além de ser avaliadora de propostas para bolsas e apoios, nacionais e internacionais. Sou também a representante ABRSM em Portugal, o maior sistema de avaliação internacional no ensino da música,operacional em mais de 90 países.

Como surgiu o gosto pelo piano?

Lembro-me que fiquei estasiada com um concerto de piano que vi, acho que ao vivo, tinha mais ou menos 5 anos, Depois comecei a insistir com toda a gente que queria aprender a tocar piano. Comecei por volta dos 7 anos e sempre de forma entusiasmada, qualquer peça ou estudo que a professora me indicasse, eu adorava, e devorava todo o repertório que tinha à mão, dos livros de piano da minha avó. Passava as férias a ler velhos livros de partituras num piano desafinado, a tentar reproduzir obras que o meu pai ouvia num velho gravador de cassetes quando íamos para Trás-os-Montes. Bons velhos tempos!

Fale-nos um pouco do seu percurso artístico

O meu percurso artístico foi fantástico enquanto na Escola de Música do Porto, uma escola de música progressista e muito exigente dirigida pele D Hélia Soveral. Depois, quando decidi seguir música por volta dos quinze anos, ninguém na minha família achou grande piada. Tive uns anos incertos, mas finalmente vim para Lisboa acabar o curso, e depois para os EUA onde tive uma bolsa de estudos para o Mestrado, e uma bolsa Fulbright. Desde que voltei dos EUA não parei de tocar, fiz formações com grandes artistas internacionais e continuei o meu caminho, sempre desafiante e estimulante mas nem sempre fácil. Tocar piano é uma tarefa muito exigente para ser bem feita, com horas de dedicação diárias. Este ano estou a preparar gravações e vários concertos. 

Como vê o panorama do ensino e dos recitais em Portugal e no mundo?

Como em tudo, há uma versão do copo meio cheio ou meio vazio. Eu sou optimista, o acesso geral ao ensino da música foi. uma verdadeira democratização da aprendizagem que antes estava reservada a nichos reduzidos da população. Em Junho de 2008 foram definidas as regras do apoio financeiro a conceder aos estabelecimentos de ensino especializado da Música, com base no critério do custo anual por aluno. Existiam nessa altura um punhado alunos no ensino especializado da Música, que se repartiam por 84 escolas do ensino particular e cooperativo muitas delas com graves problemas económicos. Nesse ano o número de alunos aumentou logo para 25.000 alunos com um investimento de 50 milhões de euros por parte do Governo, e as escolas tiveram a oportunidade de reequilibrar finanças. Neste momento o Estado apoia 108 escolas em todo o País, que vão desde Sociedades Filarmónicas, Fundações, Academias, Conservatórios, etc, e o numero de alunos apoiados situa-se de novo perto dos 25.000. O modelo teve alguns altos e baixos mas de qualquer modo o número de crianças e jovens abrangidos é significativo, além de o acesso ser essencialmente gratuito. O que se notou, neste quase 12 anos de funcionamento de contracto patrocínio, foi um aumento muito significativo da qualidade de alunos que saem para o ensino superior e depois para o mercado de trabalho. Segundo um grande mestre português, o Adriano Jordão, os miúdos agora vêm com um chip diferente, tocam repertório de dificuldade superior de forma natural! A nível de concertos, há mais e melhores concertos, com mais artistas a apresentarem-se em público e uma dinâmica mais acelerada de mercado.

Quais são os executantes e talentos que mais aprecia?

Em piano aprecio imensamente os novos e ainda jovens talentos portugueses, como o Vasco Dantas que é um pianista nacional incrivelmente talentoso, ou o Alex Stretile que acabou de ganhar o prémio de melhor pianista nacional no Concurso de Piano de Viseu. Aprecio os jovens talentos internacionais que se fazem ao palco de forma madura e afoita. Depois claro, há os nomes incontornáveis como Pletnev, Marta Argerich ou Yuja Wang que para mim são um must.

Quais foram os espetáculos em que lhe deu mais prazer participar?

Apreciei especialmente tocar na festa de encerramento da Expo 98, numa obra encomendada a Philip Glass ” O Corvo Branco” ,onde toquei a parte de piano. Outros concertos memoráveis foram um concerto em Belgais com o flautista António Carrilho, onde toquei também a solo; em Paris com a soprano Paula Dória; no Algarve com a violoncelista Catherine Stryncks, só para enunciar alguns. Aquele em que participei com maior prazer, por a música ser fantástica e fabulosa (fabulástica!) foi numa série de apresentações da Companhia Nacional de Bailado, na obra “Romeu e Julieta” de Prokofiev, onde toquei piano e celesta na Orquestra Sinfónica. Uma outra obra incrível, em que fui solista com Orquestra Sinfónica, foi na obra “La Jolla” de Martinú, em concerto na Aula Magna da Universidade de Lisboa.

Como vê a situação da música em Portugal?

Eu observo a situação da música como público e como participante; como público acho que há concertos fenomenais, e num contexto pré-pandemia, em que tivemos acesso a ouvir grandes estrelas da música erudita, orquestras e performances realmente fantásticas, o panorama era crescentemente entusiasmante. Tudo sempre um pouco demasiado centrado em Lisboa, mas o mundo das artes é mesmo assim, vive de para os grandes centros urbanos. Como participante, creio que há boas oportunidades de concertos, e principalmente uma cultura mais crítica e vibrante que há 20 ou 30 anos, sem dúvida. Claro que há mais competição por apoios, e por agendamento em salas, mas com trabalho tudo se faz.

Como vê a música num mundo pós Covid?

No mundo pós-covid muitos artistas optarão por actuar também online, penso eu, nessa maravilhosa plataforma sem fronteiras, Creio que o meio artístico depressa retomará a actividade, como aliás já se está a notar. 

Tem ligações musicais a Sintra? Onde já atuou? Quer realçar algum espetáculo ou artista com quem tenha cá trabalhado?

Vamos tocar no dia 30 de Abril no Palácio da Vila em Sintra, na sala dos cisnes! No Trio Piazzola Lisboa – como o nome indica, será um concerto com música de Piazzolla, e conta com António Carrilho nas flautas, e Catherine Strynkxs no Violoncelo. Às 19h, um evento a não perder e para o qual já estão todos convidados.Um outro concerto no mesmo local e á mesma hora, organizado pela Associação Cultural que presido, será dia 29 de Abril. Com Francisco Viana no contrabaixo e Catarina Costa no violino, dois jovens talentos actuais.Dia 6 de Maio o Pedro Madaleno Trio de Jazz actua no Centro Cultural Olga Cadaval, numa homenagem a Ahmad Jamal, e os bilhetes encontram-se à venda na ticketline. 

O que falta ao movimento cultural para ter mais peso e visibilidade?

Para maior peso e visibilidade falta haver um agenciamento profissional da música erudita, com todas as vertentes a ele associado, de promoção da imagem, marketing e divulgação. Por outro lado falta um trabalho mais sério por parte das entidades, com pagamentos a horas e contractos mais substanciais para que os artistas se possam dedicar à arte com mais profundidade.

Qual a sua agenda mais próxima?

Concerto a 30 de Abril no Palácio da Vila em Sintra, na sala dos cisnes . Depois teremos um concerto em Junho em Alcochete, em data ainda não fechada, e uma série de concertos entre Setembro e Dezembro (5 concertos) por salas dispersas no País. Entretanto vou gravar um CD com música de Beethoven, Bach, Debussy e Chopin.

Indique-nos um sonho profissional que gostasse de realizarAcho que devagarinho estou a realizar os meus sonhos profissionais, pelo que venham mais concertos e discussões sobre Cultura! 

Investigadora INET-md  http://www.inetmd.pt/index.php/pessoas/integrados/1038-helena-carvalho