Entrevista com Filomena Barata:”A Arqueologia é uma fonte de conhecimento”

Na continuação da apresentação dos membros da Rede Cultural de Sintra, conversámos desta feita com a professora Filomena Barata.

Diga-nos quem é a Filomena Barata, e qual tem sido o seu percurso.
Sou um ser humano, nascido em Angola, em Maio, do já um pouco longínquo ano de 1957.Trabalho actualmente no Museu Nacional de Arqueologia. Fiz a licenciatura em História e Mestrado em Arqueologia, na Universidade do Porto, tendo defendido a tese na área em que há muito vinha trabalhando «Miróbriga: Arquitectura e Urbanismo». Fui Directora Regional do extinto Serviço Regional de Évora do IPPAR/IGESPAR e tive a felicidade de, já por duas vezes, poder leccionar, na Universidade de Évora, e, em fase mais recente, em 2015, no Instituto Superior de Porto Amboim, Angola.

Actualmente, em regime de voluntariado, lecciono a disciplina de «Património Material e Imaterial», na Universidade da Terceira Idade do Lumiar, e colaboro com alguns Museus e municípios, na criação de visitas temáticas sobre Mitologia, em articulação com a Associação Clenardus: Promoção e Ensino da Cultura e Línguas Clássicas. Pertenço como Investigadoora ao Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras de Lisboa.

Como vê a Arqueologia no panorama cultural português? Que factos e trabalhos destacaria nos últimos anos?

A Arqueologia é uma fonte fundamental de conhecimento. Sinto que atravessa algumas dificuldades no Presente, porque os recursos financeiros são poucos, em termos do investimento estatal. Contudo, saliento que houve alguns progressos e hoje a Arqueologia já faz parte da preocupação dos Planos de Ordenamento do Território e dos acompanhamentos das grandes obras. No entanto, necessita de um reforço de investimento em projectos de investigação e valorização fundamentais à compreensão do território, ao longo do tempo.

Dos trabalhos em que pessoalmente estive envolvida, destacaria a valorização da Cidade Romana de Miróbriga, Santiago do Cacém, que acompanhei duas décadas, e os “Itinerários Arqueológicos do Alentejo e do Algarve”, a cuja equipa de coordenação pertenci. Estes Itinerários foram-se, felizmente, alargando e hoje já existem outras novas redes consolidadas, de que destaco a Rede de Cidades Romanas do Atlântico, constituída em 2018, por um conjunto de Municípios da região atlântica, tendo por objectivo valorizar o património romano e desenvolver o seu potencial turístico e cultural. Recentemente surgiu o projecto «Lisboa Romana» que também tem vindo  a afirmar-se com resultados muito positivos, no que respeita ao conhecimento e valorização dos locais que foram integrados. Mas há também redes megalíticas – recordo aqui o trabalho promovido pelo Museu de Mora –  e de locais visitáveis com cronologias diferenciadas que espelham essa aposta na criação de redes, citando, apenas a título de exemplo, o Parque Arqueológico do Vale do Terva/PAVT, um projeto conjunto do Município de Boticas e da Universidade do Minho, iniciado em 2006 . Embora esteja desactualizado no preciso momento em que escrevo, elaborei um levantamento, publicado em 2018, dos Centros Interpretativos e Museus de Arqueologia que pode ser consultado aqui e que julgo espelhar parcialmente a realidade actual: http://ascidadesdalusitania.blogspot.com/p/museus-e-centros-interpretativos-em.html

Em Braga

Que espaços arqueológicos de relevo continuam por musealizar? E qual o período mais marcante na descoberta de vestígios antigos em Portugal?  

Como em tudo, elegemos o que melhor conhecemos e sendo eu uma pessoa mais ligada à Época Romana, é natural que acompanhe de mais perto o que se passa nos sítios dessa época. Gostaria, sem dúvida, de ver continuar os trabalhos que se têm desenvolvido em Miróbriga, hoje coordenados por José Carlos Quaresma, na cidade da Ammaia, Marvão, e em Tróia, Grândola. Mas poderia referir tantos outros, a exemplo da villa romana de Pisões, Beja, onde, se bem que há muito anunciada, tarda um intervenção de fundo, e de ver mais dinâmicos os projectos culturais em torno da Villa romana de Torre de Palma, Monforte, e tantos outros.

Lamento ter visto esbater o investimento em alguns circuitos culturais anteriormente delineados, a exemplo do Circuito do Castro da Cola.

Que vestígios ou locais de relevo destacaria no concelho de Sintra?

Por afinidades de vário tipo, destaco, sem dúvida o Museu de S. Miguel de Odrinhas. Admiro o empenho dos que estiveram na sua origem, salientando a importância de um dos grandes humanistas do Presente, o Dr. Cardim Ribeiro, e da equipa que o continua a manter vivo. São um exemplo de dinâmica em torno de um sítio, de um território e de um Museu.

Mas, claro está, não posso esquecer os locais integrados nos  Parques de Sintra – Monte da Lua, onde parece ser notório o investimento na conservação de alguns dos seus equipamentos e Monumentos.

Em Tróia

Tem-se dedicado ao estudo da mitologia e dos símbolos ao nível dos mesmos. Que lições nos oferece a mitologia, sobre a perceção do mundo pelos antigos?

Sim, de longa data me acompanham os Mitos. A Mitologia – embora o tempo do Mito não seja o tempo exacto das sociedades – é fundamental para entender uma parte simbólica das mesmas, mas também as recorrências, pois alguns deles atravessam o Tempo e a Cultura de povos específicos, adaptando-se a novas narrativas e mesmo a discursos de poder diferenciados. Alguns deles, de foma até um pouco inconsciente, acompanham-nos ainda hoje. Para além disso, a complexidade das suas narrativas confrontam-nos connosco mesmos: medos, incompreensões, tentativas de compreensão, saberes e crenças. Essa trama faz-nos alargar as perspectivas, pois a complexidade permite aceitar melhor o diferente. Uma multidão de deuses, semideuses e heróis explicam a origem da vida, o Cosmos, as forças da Natureza e os fenómenos naturais, as estações do ano, a morte, a fertilidade, a guerra, a paz. Entre muitos deuses da Natureza, pois, a seu modo, todos o são ou a tentam explicar, temos o mundo das divindades da Floresta, dos Faunos, dos Sátiros, das Ninfas, de Dioniso/Baco, das Bacantes, de Pomona, e todas as outras deidades dos bosques, das montanhas, dos mares, das propriedades agrícolas e dos ciclos do ano.  Todos eles têm a sua história, a sua personalidade, os seus topos, mas uma história que se cruza com os restantes.

Destaque um projeto onde gostaria de colaborar ou promover no seu âmbito de atividade.

Gostaria de poder colaborar na criação ou dinamização de circuitos patrimoniais e, claro está, na criação de circuitos culturais, onde a Mitologia esteja presente.