Entrevista com Paulo Cintrão: “Teatro é respiração”

Figura incontornável no panorama cultural e teatral de Sintra, Paulo Cintrão, ator e encenador, presentemente ligado ao grupo de teatro byfurcação falou com a Rede Cultural de Sintra, no decurso dum ciclo de entrevistas que visam dar a conhecer um pouco mais quem em Sintra todos os dias propicia a magia das artes de palco. Leia aqui.


Como começou a carreira e o gosto pela representação no Paulo Cintrão?

Sempre estive ligado à cultura, andei nas danças de salão e no rancho das mondadeiras do Algueirão, no entanto nunca senti “chamamento” para o teatro, nem na escola. Mas um dia, um amigo de turma, quando tinha dezasseis anos, disse que precisavam de gente no grupo de teatro do Mem-Martins Sport clube. Fui, gostei do pessoal, parece que também gostaram de mim e como não sou capaz de dizer não, fui ficando. Hoje a minha profissão é totalmente ligada ao teatro.

 Qual o papel do teatro nos dias que correm? 
    
O teatro tem várias leituras e acredito que mantém o mesmo papel desde sempre. Pode ser puro entretenimento, pode ser agitador. Pode ser despertador de mentalidades e  congregador. Na verdade é não só o cunho dos seus intervenientes, mas principalmente o espelho do seu público.  


Como vê a cena teatral em Portugal, e em Sintra, em particular, atenta a sua experiência e observação?
Há nos últimos anos uma tentativa de descentralização, que se saúda e  que se deseja ainda mais profícua. Sintra é, daquilo que sabemos, dos concelhos que mais atividade tem, derivado não só à quantidade de grupos, como à qualidade dos projetos que realizam.

 Que anda a fazer agora? Como tem sido este período de pandemia para vós?
A companhia de qual faço parte, tem vido a desenvolver, diria que de forma ainda tímida, conteúdos para plataformas digitais, que celebram datas do calendário. E estamos a iniciar um ciclo de trabalho que se estenderá até ao fim do ano, com projetos que ficaram pendentes do ano transato. Daremos sequência ao nosso festival, com a terceira edição do Imaginário, iniciaremos um projeto em parceria com uma IPSS, sobre a doença mental, entre outros.

 Qual o papel ou trabalho que gostaria de realizar neste âmbito?
Temos vindo a fazê-lo, mas gostaria de criar uma espécie de teatro/filme imersivo e interativo.

Quer falar um pouco dos diversos grupos de teatro de Sintra, e o que cada um deles trouxe ou trás de estimulante e diferente no panorama local ou nacional?
Desde há muito que Sintra é um local onde se desenvolvem projetos teatrais com diferentes linguagens e todos eles têm as suas particularidades. Há quem diga que somos um lugar onde os grupos de teatro crescem como cogumelos, no entanto isso é um pouco instigado principalmente pelo executivo que apoia, por vezes de forma indiscriminada, o aparecimento desses grupos. No entanto de uma forma ou de outra, há uma integração saudável, pelos grupos já existentes. Existe também um fluxo de colaborações que permite a criação de novas linguagens teatrais, para além de novos e jovens criadores, que normalmente optam por escolas que dão formação e que criam também novas estruturas. Isto faz com que Sintra, como já referi, tenha um movimento teatral bastante ativo.


Como vê a apetência dos jovens pelas artes performativas, e que diferenças nota em relação às últimas duas décadas?
Provavelmente não tenho informação que sustente uma opinião valida, no entanto creio que em termos de qualidade, os jovens de hoje estão muito mais preparados para a vida integrada numa estrutura profissional. Há 20 anos havia outro tipo de camaradagem e de ajuda entre grupos. Mas creio que existe uma relação salutar e que , no movimento da plataforma dos teatros de Sintra, vamos encontrando formas de criar condições para todos numa parceria com a edilidade.


Quem foram os artistas ou criativos com quem mais gostou de trabalhar?
As minhas referências dividem-se em duas fases. Uma na etapa inicial, onde trabalhei com pessoas no teatro Amador, que davam a vida por aquilo que faziam, como José Gonçalves. ( o meu primeiro encenador) e Valdemar Gomes, mestre e companheiro de tábuas. Ainda nesta fase tive o privilégio de ter como professores, nomes como Carlos Avillez, João Vasco, Clara Joana, João Mello Alvim e Nuno Pinto ( outro que foi mais que mestre, principalmente amigo). Numa segunda fase, em que tive contacto com o teatro de improviso, trabalhei com dois nomes que muito me ensinaram e continuam a ser guias naquilo que faço, Omar Argentino Galvan e Gustavo Miranda. Há uma lista extensa de nomes com quem adorei trabalhar, mas não há caracteres que cheguem para a enunciar

Que tipo de público vai hoje ao teatro? Há mudanças positivas ou negativas?
Há um esforço da maior parte dos grupos, no intuito de criar uma corrente de público que seja fiel. Daquilo que me vou apercebendo haverá menos público, mas mais seletivo. O intuito agora será o cruzamento de públicos que possam assistir a várias linguagens sem se sentirem defraudados. Não tem sido fácil.  A Plataforma criou um cartão que dá acesso a descontos que poderá facilitar esse cruzamento, mas o crescimento tem, por enquanto, sido diminuto. Mas acredito que com a vontade com que estamos, publico e agentes, tudo irá melhorar.  

Como vê o trabalho em rede dos vários agentes e grupos culturais? Pode fazer-se um balanço e dar sugestões para o futuro?
É positivo. Cria novos olhares, simbioses e facilita o tal cruzamento de publico que é desejável. Apenas penso que há necessidade de sermos cada vez mais realistas e existir um equilibro entre as necessidades dos agentes, como nas possibilidades dos públicos. E aqui salta à vista o importante papel das entidades que tem possibilidade de oferecer melhores condições a ambos os lados.

Uma mensagem para o Dia Mundial do Teatro, dia 27 de Março
O teatro é respiração. Intensa ou suave, domina os freios do querer e realiza os sonhos dos mortais, tornando-os eternos.