Meganeura do Carbonífero, por Nuno Bastos

Imagine, caro leitor, que se senta num lugar agradável junto a um pitoresco rio, lendo um livro e saboreando um picnic quando, de repente, surge diante si um bicharoco voador possuidor de abastada envergadura. Trata-se da meganeura, um sujeito cuja largura atinge os setenta centímetros e que se parece com as actuais libélulas.

Estou em crer que tal situação não seria do seu agrado, pois pode tornar-se incomodativa a existência de tal criatura a rondar a área escolhida para se refastelar. E, a partir deste ponto, pode tentar enxotar o ser alado ou, em alternativa, recolher os víveres que consigo transportou e rumar a outras paragens mais sossegadas. Pode também anexar a segunda hipótese à primeira e tentar um dois em um que seria enxotar o bicho enquanto guarda os víveres e recolhe a toalha que estendeu ao mesmo tempo que se faz rumar a outro lugar. Mas esta terceira hipótese deverá ser um pouco mais complexa porque implica fazer um pouco de tudo em simultâneo e isso pode causar alguma desordem no correcto rumo dos acontecimentos que, a meu ver, é deixar a meganeura em paz porque há espaço para si e para a criatura. E a meganeura estava, provavelmente, apenas em busca de algum petisco que o meu leitor estendeu sobre a toalha do picnic.

Vamos, portanto, supor que o ser avistou algo de delicioso sobre a toalha estendida e decidiu sobrevoá-la para adquirir o produto em causa e que, após a compra, a meganeura iria seguir a sua vida, não regressando e não voltando a perturbar o sossego a que o meu leitor se quis dedicar. Assim, à medida que o bicho se afasta para o outro lado do pequeno rio, os olhos do meu leitor percorrem a paisagem em redor, tomando as cores das pequenas flores, sentindo-lhes o aroma perfumado e escutando o leve ruído da água corrente que flui ali à beira.

Pode, agora, o meu leitor dar continuidade ao que fazia antes do avistamento e que era lavrar o seu saber nas páginas de um livro que o entretinha havia vários dias. E já vai a sua vista numa frase adiante quando um ponto de interrogação se faz surgir no topo do seu modo pensante, interrompendo a leitura. Como é possível ter aparecido uma meganeura diante de mim?

É uma pergunta importante e que se ajusta à realidade dos conhecimentos de agora. Ora, atentando a esses, sabemos que o Homo Sapiens era inexistente há uns trezentos milhões de anos, durante o carbonífero. E isso significa que fazendo o meu leitor parte do grupo ao qual chamamos de Sapiens, então não pode ter observado uma meganeura diante de si porque no tempo de um, não havia o outro. E o inverso também é verdade. A saber, no tempo de outro não havia o um.

Assim, e concluindo ter-se tratado de uma mera ilusão criada por algum devaneio mental extraído das páginas que se vão apresentando, o meu leitor decide avançar no livro, levando a esperança de poder auferir do avistamento de um yeti durante o percorrer de uma das páginas que se avizinham.

Nuno Bastos

Website:https://nunofbastos.wixsite.com/nunobastos

YouTube:https://www.youtube.com/user/NunofBastos/

Fotografia: https://www.alamy.com/portfolio/nunobastos

Fotografia:https://pixabay.com/pt/users/nunofbastos-20361929/

Email:nunofbastos@gmail.com