Miguel Real faz a recensão de “Barcas Novas levam Guerra”

FILOMENA MARONA BEJA

UM CALEIDOSCÓPIO NARRATIVO

Filomena Marona Beja (FMB) publicou recentemente o seu último romance, Barcas Novas Levam Guerra, porventura um dos seus melhores livros, evidenciando ter atingido um nível superior de maturidade literária. Lendo-o, não nos demos conta de uma rutura com a sua anterior oficina de escrita. Pelo contrário, constata-se uma forte concentração do seu estilo anterior: os parágrafos, que já eram pequenos, tornaram-se menores; as interjeições, como expressão da emoção espantada da personagem, multiplicam-se; a descrição ou exposição narrativa quase desaparece; a narração, sempre comedida em FMB, é reduzida ao mínimo. O que restou? A essência do seu modo de escrita, pela qual FMB se singulariza no atual panorama do romance português: a redução da narrativa a um conjunto múltiplo de quadros significativos, a totalidade dos quais perfaz o sentido do romance, integrando-se cada quadro num dos três eixos narrativos abaixo descritos.

Barcas Novas Levam Guerra conta a história da família Brás, do Algueirão, em Sintra, dona de uma mercearia, Francisco e Mariana, com dois filhos, Henrique e Rafael, ao longo de cerca de quarenta anos (entre 1960 e o princípio do século XXI). Entrelaça-se esta, como eixo central do romance, com a história de Portugal ao longo deste período: a resistência ao Estado Novo, as recordações da vida sofrida de Francisco e Mariana na venda ambulante (o “petrolino”) antes da compra da mercearia,  a vida de trabalho de merceeiro, sem horário, a tentativa de dar um futuro diferente aos dois filhos, pondo-os a estudar num liceu em Lisboa (não havia ensino secundário em Sintra), a procura de sobrevivência das três irmãs de Mariana, uma numa padaria, outra numa alfaiataria, a terceira na Messa, fábrica de máquinas de escrever. Como se constata, estamos perante um universo realista, como sempre tem sido realista o estofo dos romances de FMB. Um retrato realista dos Brás, uma pequena burguesia poupada, dita então economicamente “remediada, a tentar transitar, à semelhança de grandes massas urbanas no pós-Segunda Guerra Mundial, para a média burguesia, comprando a mercearia e casa própria, esta a um legionário que enriquecera com o volfrâmio e que, em Lisboa, se encostara ao Estado e se tornara acionista da Sacor (gasolina). Até à década de 60, a função de representação social do romance é sociologicamente exata, como a será quando, no seguimento, entram em função as personagens dos filhos, preenchendo a quase totalidade de Barcas Novas Levam Guerra, título inspirado no poema do trovador João Zorro (séc. XIII) e da sua glosa recente feita por Fiame Hasse Pais Brandão (p. 47).

Se os pais e as tias suportaram a mentalidade do Estado Novo, tentando singrar dentro dela, a nova geração, chegada à juventude no princípio dos anos sessenta, não suporta já os antigos padrões de vida, fundados na trilogia exposta em azulejo à entrada da casa do legionário: “Deus, Pátria, Família”, esta última palavra a substituir a ”Autoridade” salazarista (p. 30).

Henrique entra na Faculdade de Ciências, em Lisboa, Rafael estuda no ensino secundário, ambos conhecem o “Ribeirinho” (José António Ribeiro do Santos – personagem real -, militante do MRPP, morto pela PIDE na Faculdade de Economia), acompanhando-o nos protestos e nas manifestações. Henrique namora com Blé, filha do chefe de redação do Diário da Manhã, jornal do regime, e neta do legionário seu vizinho, é convidado a escrever para o jornal, mas os seus textos são censurados, corta com Blé quando conhece Margarida na Faculdade. Sucede a secessão de Goa, Damão e Diu, dá-se início à Guerra do Ultramar, Palma Inácio desvia um avião e lança panfletos anti-salazaristas sobre Lisboa, o paquete Santa Maria é raptado por Henrique Galvão; Hortência, a sua tia, casa por procuração e parte para Angola, Henrique consegue adiamento de incorporação militar, mas Rafael, mais combativo, já com ficha na PIDE,  não, é mobilizado para o a Guiné e desaparece, não só não dá notícias como não consegue saber-se do paradeiro. Dá-se o 25 de Abril de 1974, Hortência regressa de Angola com o marido Maurício, regressam pobres e, como Francisco e Mariana meio século antes, começam do nada, utilizando a velha bicicleta em que aqueles anunciavam “petrolino” em venda ambulante. O que terá acontecido a Rafael na Guiné? É o grande enigma do romance, centro do eixo narrativo que entrelaça História e famílias, pelo que pensamos não ser curial revelar o que aconteceu a Rafael, furtando ao leitor o prazer de o descobrir.

Todo esta sequência de acontecimentos dos filhos dos Brás e da história recente de Portugal é contada em pequenos parágrafos alternados tendo ora a família como eixo, ora a política portuguesa, ora entrelaçando-se ambos. O conjunto forma uma espécie de caleidoscópio narrativo em que ora brilha mais um eixo, remetendo os restantes para uma zona de sombra, ora mais outro, ora mais o terceiro. É, à semelhança dos restantes romances de FMB, a zona de luz que estabelece o foco narrativo (não a focalização), prendendo a atenção do leitor, que vai compondo na sua mente o todo do romance.

Com o 25 de Abril as “barcas” de Lisboa deixaram de enviar homens para a guerra. É, de certo modo, a existência da guerra que permite classificar este romance como geracional, espelhando, na retaguarda, o período da luta estudantil contra a Ditadura.

Queremos acabar como começámos: um dos melhores romances de FMB e, sem menosprezo pelos restantes, porventura o melhor.

Miguel Real

Barcas Novas Levam Guerra,

Parsifal, 195 pp., 15 euros.