Os 80 anos do Baile das Camélias- um artigo de Ricardo Pereira

Se em janeiro de 2019 dissessem a algum Sintrense que o Baile das Camélias não se iria realizar… provavelmente ninguém acreditaria. O que é certo é que já estamos em 2021 e é com muita pena que, pela segunda vez consecutiva, os Sintrense se viram privados de um dos bailes com mais história e tradição que o concelho recebe. Infelizmente não é caso único, já por duas vezes a data não pode ser realizada devido a duas situações que implicaram estruturalmente com o edifico e que impediram a realização desta Noite.

Muito se perguntarão: Noite ou Baile? Desde sempre foram adotadas ambas as nomenclaturas uma vez que, se por um lado, se chama Noite das Camélias uma vez que era a noite que lhes inteiramente dedicada, por outro,  sempre foi popularmente chamado de Baile das Camélias sendo, por tal e atualmente, aceitável que possamos utilizar ambas as formas para o definir.

Este ano celebraria a bonita data de 80 anos da sua fundação e é, com muita pena de toda a Direcção da Sociedade União Sintrense, e certamente das centenas de participantes que habitualmente o espaço recebe, que não se realiza pelo segundo ano consecutivo.
Toda a nova equipa que atualmente dirige esta Sociedade histórica teve um momento complicado para lidar de imediato, uma vez que a nomeação e início de funções decorreu no dia 13 de Março e o Baile que já se estava a preparar é cancelado uns dias depois.

Ainda assim a história de uma noite como esta já é longa e certamente irá regressar mais esplendorosa,  com mais pessoas e com a tradição de sempre, igual àquela com que foi iniciada É sempre muito importante referir que o aparecimento desta Noite dá-se pela mão da comissão criada por Augusta de Carvalho, Rodrigo dos Santos Soares, Beatriz Silvestre e Henrique Lima Simões. É justamente Henrique Lima Simões que apresenta o primeiro Baile, a 19 de Março de 1941, explicando o seu conceito e ainda sem ideia de que haviam criado algo que viria a ter uma longevidade e sucesso sem precedentes.

Nessa mesma noite, a saudosa poetisa Maria Almira Medina recitou o poema Camélias de Sintra e abrilhantou mais ainda a noite, se tal fosse possível, brindando os participantes com a interpretação das canções “Marching Trough Georgia” e “South American Joe” aos muitos presentes nessa grande primeira Noite.

Esta tradição acaba a trazer consigo muitas outras, algumas já um pouco difusas no tempo e na memória, ao passo que outras bem presentes. Duas das que muitos já não lembrarão tão bem era, por um lado, o facto de que esta Noite implicava originalmente dois bailes e, por outro, o porquê dos mesmos sucederem.

Comecemos pelo início… A rivalidade entre a beleza inegável das diferentes espécies de camélias, existentes nas diversas quintas de Sintra da altura, era motivo de discórdia entre jardineiros, uma vez que todos achavam as suas como sendo as melhores e mais bonitas. Criar um baile onde todas pudessem ser mostradas como obras de arte conjunta foi a melhor forma de, anonimamente, as flores poderem ser utilizadas, misturadas e apresentadas criando estes conjuntos decorativos de que muitos se recordarão.

Só os jardineiros sabiam quais eram as suas flores… e acredita-se que no conjunto a linha da identificação exata de algumas delas poderia tornar-se difusa mesmo para eles. O Participante não se sabia se aquela flor branca era de Mont Fleuri ou da Quinta do Relógio… ambas se encontravam lado a lado fazendo o contorno de desenhos no palco, no centro suspenso no teto ou na placa, que ainda hoje é erguida, revestida a folhas e decorada com flores onde se pode ler “Noite das Camélias”.

Esta tinha sido, também ela além do próprio evento, uma missão bem sucedida de aproximação e de trabalho em conjunto, sem rivalidades e a bem de uma causa maior.
Por esse motivo, sete dias depois, ocorria o segundo e merecido Baile. Este não era destinado ao público em geral mas sim apenas aos jardineiros e família, que tinham a sua festa particular da homenagem às belas flores de que cuidavam primorosamente ao longo de todo o ano.

Hoje em dia, fruto da modernização dos tempos e da forma de organizar o evento, o Baile dos jardineiros já não tem lugar mas, ainda assim, é costume ouvir-se sempre música, muita animação e uns passinhos de dança enquanto um conjunto de Diretores, amigos e voluntários desmonta os enfeites que decoravam a sala passados os sete dias.

O Baile das Camélias trouxe a Sintra noites maravilhosas que acabavam só com o raiar do Sol. As pessoas faziam longas filas no exterior da Sociedade para poderem entrar, havia alturas em que mal se podia dançar de tão apertados que todos estavam. Compravam-se e mandavam-se fazer vestidos, luvas e forravam-se sapatos para fazer o conjunto da noite. Os senhores usavam traje de gala a acompanhar as senhoras. Casais irrepreensíveis e solteiros também… pois muitos pares ali se juntaram, na festa e alguns por toda uma vida.

Os cabeleireiros eram marcados com semanas de antecedência e aquela noite foi, e é, uma mostra das melhores modas e tendências que marcam inegavelmente uma determinada época em termos estilísticos e por onde passaram nomes como Herman José, Cândida Branca Flor ou Simone de Oliveira.
Embora esta data não pudesse ter o bolo e descerramento de placa comemorativa dos oitenta anos a assinalar uma data tão importante, na altura devida, há a certeza de que ainda acontecerá num futuro próximo.

Ainda estão reservadas muitas e longas noites de música e alegria com esta festa. Muitos ainda irão viver e testemunhar o que é o Baile das Camélias e a Sociedade União Sintrense continuará a ter a honra extraordinária de continuar a presentear os Sintrenses com esta magia intemporal… a magia de um evento que continuará a ser passado ao longo de gerações e que se espera nunca ter fim.

Ricardo Pereira

Presidente da Sociedade União Sintrense