Poemas de Ofélia Cabaço

Das coisas que devo pensar,

mistério da graciosa idade

lembrança meiga deve estar

na imperfeição da Vontade;

 

Cresci em pacata cidade,

Ponta Delgada à beira mar,

em casa antiga nasci,

no colo de minha avó ergui

 

Meus olhos para a amar

Se não me valesse ali

Creio que não estaria aqui,

Vida minha jogos e danças;

 

Na mocidade, um falsete em dó,

alma inquieta, sonhos e liberdade,

mandada à deriva por ordem,

de frágil utopia, à margem

dum rasto invernoso, naquela idade

 

Voar como as aves no ar,

vestir minha vida com flores

o mar ondulante amar

um templo secreto, amores

 

Como nuvens soltas, a raiar madrugadas

ouvir o vozeirão do mar, mãos dadas,

minha avó em suas preces,

 

Para mim buscava o Bem

a seu lado fui princesa

afortunada também.

 

………….

 

Comungar da ideia metafísica,

respirar Espírito e sublime música

abrir a porta de casa,

ao mais alto esvoaçar

qualquer coisa não pensada,

 

as casas são o sémen, imaginar

as almas ao abrigo dum degredo

que nos conduz ao eterno segredo

 -abrigo do medo

-abrigo do choro

-abrigo da solidão

-abrigo do amor

-abrigo da tristeza

-abrigo d´alegria também;

 

as casas…

um canto, uma cadeira, um livro,

para além da janela, o sol luminoso,

penetrante Bem,

E o arvoredo cantante

Alimenta nossa mente…,

Na rua, um rosto receoso,

Vivendo o erro de quem erra

Nestes dias de subtil guerra (…),

 

E o tempo passa silencioso,

De si cioso,

Debaixo da minha janela.

 

…………….

 

 

Gosto

Gosto de ver milheirais

evolando-se entre campos verdejantes

Gosto do aroma das margaridas rastejantes

doce e amargo, desabrido

por entre a solenidade do silêncio,

Gosto de olhar através das árvores

e contemplar a luz do dia,

Gosto de amar ao jeito do poeta,

Gosto de sonhar e pensar o Belo

– Andar por entre nuvens brancas

quando as contemplo a correr-

Eu gosto.

 

Ofélia Cabaço

Novembro 2021